terça-feira, 19 de abril de 2011

A careca do Rei - por Tais Estefanie

Estava em meu ateliê, pintava a vista que eu tinha de minha janela, quando um homem vestido
formalmente rompeu pela porta:

- Vossa Majestade precisa de seus serviços, por favor me acompanhe – o homem disse como
seu eu não tivesse escolha, mas a verdade era que eu não iria recusar, era uma época de vacas magras...

-Sim, claro. Devo levar algo em especial?

- Apenas seu material de trabalho, por favor, vá logo, temos uma longa viagem pela frente. –
“Mas é claro, o rei vai morrer se eu não chegar a tempo de pintar sua bela careca...”, pensei comigo
enquanto pegava meus materiais.

Uma carruagem nos aguardava no lado de fora. A viagem seguia tranqüila, até que de repente a
carruagem parou.

- O que está acontecendo, por que paramos? – perguntei, o homem desceu para falar com o
cocheiro, quando voltou estava com uma expressão indecifrável no rosto. – O que está acontecendo, me
responda!

- O cocheiro fugiu. – ele me informou.

- Ah, tudo bem, podemos guiar o cavalo sem problemas...

- Você não entendeu, ele fugiu com o cavalo.

Levei minhas mãos à cabeça, estava no meio do nada, com um homem que não gostava de falar,
sem água, sem comida, e estávamos a uns 50 quilômetros do castelo, “Mas que beleza não?”.

- Então... Vamos a pé.

- Tudo bem – eu disse, afinal vou ganhar por isso, era o que me animava.

Passaram-se 4 horas de pura areia e cascalho, o sol ardia em minha pele, mas agora eu já
avistava ao longe o castelo, “Que bom, finalmente vou comer alguma coisa, pelo menos é o que
espero...”

Mais uma hora de caminhada e chegamos ao palácio. Uma servente (que aliá parecia-se com
minha tia já falecida) trouxe-nos frango assado e vinho, antes que eu pudesse começar a comer, outro
homem entrou na cozinha anunciado:

- O rei já está pronto e está aguardando o senhor.

-Ah, sim, já estou indo. – eu disse isso, mas na verdade queria dizer isso: “Você me chama para
pintar sua careca, o cocheiro foge, estou sem almoço, ah, vai se...”

-Vamos, ande logo, a família real não tem a vida toda.

Por fim eu estava lá, no meio de vários serventes e um cachorro, pintando a careca do rei.

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